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24/09/2014

"Freud ainda incomoda."..." E continua em questão"..."O dia em que Freud não morreu"

setembro 24, 2014
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Freud ainda incomoda. E continua em questão

Reprodução



"O dia em que Freud não morreu"

Gláucia Leal

Passados 75 anos da morte do criador da psicanálise, suas idéias ainda influenciam profundamente as maneiras de pensar e entender o mundo – mesmo que nem sempre seja possível perceber isso de forma consciente. Pode-se concordar ou discordar dele e até mesmo odiá-lo. Mas é impossível a qualquer pessoa bem informada permanecer indiferente à sua obra

Imagine um jovem e talentoso neurologista que trabalhasse com crianças vítimas de paralisia e estudasse o funcionamento do sistema nervoso, na conservadora Viena do fim do século 19. 

Um pesquisador dedicado e culto, reconhecido por professores e colegas mais experientes, que – sem grandes sobressaltos – certamente construiria uma sólida carreira acadêmica. 

Perspicaz e produtivo, na segurança do laboratório é muito possível que fizesse descobertas dignas do aplauso de seus pares. 


Essas comprovações, realizadas com rigor, poderiam ser replicadas e obviamente teriam seu valor, oferecendo sustentação a achados posteriores, úteis para o avanço científico. 

Talvez nada realmente transformador, mas sem dúvida importante. 

É provável que esse fosse o caminho mais seguro e óbvio a ser seguido. 

Mas não foi o escolhido por Sigmund Freud. 

Ele mostrou, até por meio das próprias decisões, que o mundo (interno e, consequentemente, externo) escapa à lógica – é “psico lógico”.


Não por acaso Freud tornou-se uma das figuras mais controversas do século passado. 

Em A interpretação dos sonhos, de 1900 – considerado um marco na criação da psicanálise – ele apresenta idéias que deixaram de pernas para o ar muitas das teorias até então vigentes sobre o ser humano e seu funcionamento psíquico. 

Em uma sociedade aparentemente recatada, onde falar sobre sexo (e admitir que o assunto merecia ser tratado com atenção) era um tabu, Freud ousou fazer afirmações consideradas, na época, inconvenientes e escandalosas acerca da sexualidade – até mesmo de crianças pequenas. 

Disse, por exemplo, que a boca é uma zona erógena e que o prazer desfrutado pelo bebê no ato de sugar é sexual.

Falou ainda de algo, no mínimo, incômodo: a existência de uma instância psíquica inconsciente que aflora e se faz conhecer por meio de sonhos, atos falhos, sintomas. 


Essa proposição – que mudou a relação do homem consigo mesmo, com a cultura e a arte e com o próprio corpo – é considerada a terceira das grandes feridas narcísicas da humanidade.  

A primeira é a afirmação de Copérnico de que a Terra não é o centro do universo: é o planeta que gira em torno do Sol. Essa idéia nos leva à conclusão de que nenhum de nós, terráqueos, está no umbigo do mundo. 

O segundo golpe vem com Darwin e sua teoria, que aproxima o homem de outros animais e o coloca ao lado deles na cadeia evolutiva. 

E, por fim, Freud fala desse âmbito inescrutável que mora em nós e nos move em direção a sentimentos, escolhas e atos tantas vezes estranhos em nós.
 

Em busca da escuta do inconsciente, o médico de almas apresentou a homens e mulheres, estarrecidos diante de sua ousadia, uma clínica revolucionária, que se embasava na cura pela palavra, pela associação de idéias que se ligavam umas às outras e terminavam por trazer à tona os conflitos que escapavam à                       consciência.                                                   

Passados 75 anos de sua morte – causada por um câncer que se arrastou por muito tempo –, seus conceitos foram lidos e relidos, revistos e esmiuçados, retalhados, ampliados, discutidos. 

E nem sempre compreendidos. 

Quando um aluno, colega ou amigo pouco habituado à obra de Freud comenta o quanto ele deixou de lado em sua teoria ou foi marcado por idéias hoje ultrapassadas, embora vigentes em sua época, tendo inicialmente a concordar. 

De fato, Freud não explica tudo, ao contrário do que prega o senso comum. 

Aliás, não explica mesmo: antes, ensina a suportar que o saber, tanto de si quanto do outro, pode ser construído por meio da experiência, da elaboração – e, assim, abre caminho para desdobramentos da teoria. 

Pode-se concordar com Freud ou discordar. 

Ou até mesmo odiá-lo. 

De qualquer forma, uma coisa é certa: 

é impossível a qualquer pessoa bem informada ficar indiferente ao criador da psicanálise e a sua obra. 

Sete décadas e meia  
depois de sua morte, 
Freud ainda incomoda. 
E continua em questão.

fonte:
blogs.estadao

 
http://blogs.estadao.com.br/pensar-psi/o-dia-em-que-freud-nao-morreu/
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